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Pós-terremoto – ARTIGO ELIANE CASTANHÊDE
25 de abril – Folha de S.Paulo
Quem diria? Serra, Alckmin e Marta Suplicy estão (ou estavam) se engalfinhando pelo apoio de Orestes Quércia na eleição para a Prefeitura de São Paulo.
Quércia é um exemplo vivo -vivíssimo, pode-se dizer- do que ocorre com o seu partido, o PMDB: em descrédito, nem parece ter mais condições de se candidatar a cargos majoritários, mas tem um tempo enorme na TV e vive sendo disputado por gregos e troianos, ou melhor, por petistas e tucanos.
Deixando de lado esses… detalhes, o fato é que Serra interrompeu uma onda de más notícias com uma grande notícia política: levou a melhor na corrida por Quércia, a quem jogou no colo do candidato Gilberto Kassab (DEM), junto com preciosos 4min30s a mais na telinha da campanha. Ontem, já houve um empurra-empurra entre o PSDB-que-está-com-Alckmin e o PT, reunido com Marta Suplicy, para ver quem perdeu mais. Mas é simples: os dois perderam.
Além de não unir o PSDB, Serra vinha suportando mal o fiasco da privatização da CESP; a desenvoltura de Aécio Neves, em plena campanha para se tornar conhecido; e a aliança PSDB-PT em Belo Horizonte, o mais espetacular movimento político das eleições municipais. Até terremoto São Paulo teve!, dirão os anti-serristas.
Mas Serra tem lá sua garra e principalmente seus trunfos, potencializados pelo favoritismo nas pesquisas. Neutralizou as agruras e calou os críticos ao fechar o acordo com o PMDB, que favorece Kassab agora na disputa paulista e abre uma avenida de oportunidades em direção à rampa do Planalto.
Ontem, o PMDB estava com FHC. Hoje, com Lula. Amanhã, com quem tiver as melhores chances de levar a Presidência. Politicamente, é mais promissora a aliança PSDB-PMDB em São Paulo do que a PSDB-PT em Minas. Até porque o PMDB vai com quem dá mais. O PT só vai com ele mesmo.
Add comment Maio 27, 2008
Sugestão a DEM e PSDB – ARTIGO MAURO CHAVES
12 de abril – Estadão
Nem toda luta fratricida tem resultados negativos. A Guerra de Secessão, por exemplo, acabou com a escravidão, criou uma democracia moderna e poderosa. É óbvio, porém, que o tempo da guerra tem limites. Que isso sirva de consolo aos demos e tucanos paulistanos, que protagonizam a mais virulenta guerra surda interpartidária que já se viu neste país – e que o presidente dos tucanos, o pernambucano de nome Guerra, só tem contribuído para açular a cada vinda a esta capital. Mas até o fim de junho (prazo das convenções), sem pressa, dá para fazer desse limão uma boa limonada.
O grupo tucano que apóia a reeleição do prefeito Gilberto Kassab considera que o atual prefeito é um administrador competente e dedicado, que tem mantido rigorosa lealdade ao programa (tucano) da administração Serra/Kassab, tem demonstrado coragem e ousadia em combater as invasões de espaço público na cidade, já desencadeou uma operação (Cidade Limpa) que desvelou belezas que a cidade escondia, tem investido pesado na educação, na saúde, na melhoria do meio ambiente e em vários outros setores (inclusive no trânsito, cujos resultados estão para surgir). Para estes, a viabilidade eleitoral de Kassab decorre do crescimento da avaliação positiva de sua gestão, o que, na opinião dos especialistas em pesquisas, acaba sempre se transformando em votos.
O grupo tucano que apóia a candidatura a prefeito do ex-governador e ex-candidato a presidente da República Geraldo Alckmin o considera um administrador competente, dedicado e, certamente, admira o trabalho de sua gestão estadual, nos campos da segurança pública, da educação, da saúde, do transporte de massa e tantos mais. Para estes, a viabilidade eleitoral de Alckmin decorre da posição, em que se encontra, de segundo colocado nas pesquisas (depois de Marta Suplicy), dada a vantagem do recall (expressão predileta de Alckmin) de um ex-candidato à Presidência da República. Enfim, aí estão dois bons candidatos, com afinidades programáticas inegáveis, um mais ligado à esperança presente e o outro, à lembrança, recente, do eleitorado paulistano.
O erro tanto de alckmistas quanto de kassabistas tem sido a suposição utópica de que algum desses dois candidatos desistirá em favor do outro, para preservar a aliança demo-tucana. É mais fácil a Dilma vencer um concurso de requebrado para madrinha de bateria de escola de samba. Há, porém, um meio muito simples de os dois candidatos celebrarem uma sólida aliança, sem que nenhum deles desista de sua candidatura a prefeito. Chamaria essa fórmula de “sublegenda virtual” – lembrando a época em que dois candidatos saíam pelo mesmo partido e ganhava o mais votado. A votação em dois turnos permite que dois candidatos, mesmo que de partidos diferentes, defendam um programa comum e estabeleçam, previamente, uma aliança no segundo turno, em torno do mais votado.
O risco de as candidaturas independentes de Kassab e Alckmin fortalecerem Marta Suplicy seria verdadeiro se a eleição fosse em um turno só. Não havendo animosidade interna demo-tucana, os votos de Kassab e Alckmin, no segundo turno, necessariamente se somarão, em favor de um deles, e por motivo algum se transferirão para Marta. Então, a receita simples da boa limonada (nem tão forte que fique ardida, nem tão fraca que fique aguada) é o equilíbrio da campanha de ambos em torno de um programa comum, tendo por base a continuidade da gestão (tucana) Serra/Kassab.
Como se faria, na prática, essa “sublegenda virtual”? Eis minha sugestão: líderes dos dois partidos, juntamente com alckmistas e kassabistas, no início de junho marcariam uma grande cerimônia pública, na qual anunciariam as duas candidaturas (não há nenhum impedimento legal para isso). Os dois candidatos, com elegância e humildade (se possível, cada qual elogiando o outro), se poriam à disposição do eleitorado paulistano, prometendo apoio total ao concorrente presente, em caso de vir este a ser o escolhido. Depois, cada qual faria a sua campanha independente, procurando demonstrar as suas melhores condições de levar adiante o projeto comum – em continuidade à gestão Serra/Kassab.
Seria fundamental que, em suas campanhas, esses candidatos – assim como todos os demais, de quaisquer partidos, que se candidatem a governar a cidade mais importante do Estado mais importante do País – defendessem esta formidável locomotiva do Brasil contra os ataques sistemáticos, despropositados (quando não ridículos ), que algumas figuras publicas têm feito a São Paulo, nos últimos tempos. Ora é o presidente da República que acusa a “elite” paulista de ter destituído um chefe de Casa Legislativa federal por ser nordestino (e não por ter sido flagrado em ato de corrupção); ora é o governador de Minas que atribui à “hegemonia” de São Paulo os males do Brasil (sem explicar por quê); ora é o deputado e ex-governador cearense (presidenciável crônico) que vê conspiração da “imprensa paulista” na acusação (comprovada) de produção de dossiê chantagista na copa planaltina. Por que tanto ódio a São Paulo? Afinal de contas, a unidade mais forte da Federação não tem culpa de ser governada, coincidentemente, pelo candidato mais forte à sucessão presidencial.
Enfim, que os candidatos tenham a generosidade de pensar muito mais nos interesses da coletividade que vive na cidade de São Paulo do que nos interesses de suas respectivas carreiras políticas. E sendo assim, animados pelo prazer de servir à população desta fantástica capital (e não pela esperteza de se servirem dela), que os candidatos façam as suas campanhas com toda a tranqüilidade e, ao final, relaxem e gozem.
Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor. E-mail: mauro.chaves@attglobal.net
Add comment Maio 20, 2008
Nunca vi 1º colocado ceder lugar ao 3º, reage Alckmin
19 de março – Folha de S.Paulo
Ex-governador responde a articulação de vereadores do PSDB em apoio a Kassab
Em artigo, o líder Gilberto Natalini defende a aliança com o DEM e exalta o que chamou de conquistas da gestão “Serra-Kassab”
FERNANDO BARROS DE MELLO
CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
O ex-governador Geraldo Alckmin rompeu ontem o estilo contido e reagiu à articulação de vereadores do PSDB em apoio à reeleição de Gilberto Kassab (DEM) à Prefeitura de São Paulo. Em resposta ao terceiro documento produzido pela bancada em favor da aliança, Alckmin disse que nunca viu o primeiro colocado nas pesquisas ceder a vez ao terceiro.
“Claro que sou favorável [à manutenção da aliança]. Agora, por que quem está em primeiro lugar precisa abrir mão para quem está em terceiro? Eu nunca vi isso”, afirmou, para completar em seguida: “Só se for para ajudar o PT”.
Alckmin participou de homenagem a Franco Montoro. Horas antes, vereadores do PSDB deram novos sinais de apoio a Kassab. Em resposta a um ato organizado pelos apoiadores de Alckmin, a bancada convocou para semana que vem reunião pró-aliança.
Falando contar com “ampla maioria da bancada”, o líder Gilberto Natalini divulgou um artigo em que não apenas defende a aliança como exalta o que chamou de conquistas da administração “Serra-Kassab”.
Questionado sobre o artigo, Alckmin disse: “Não vi o documento, mas sem ver já achei bom, porque as pessoas devem ter todo o direito de expor suas idéias”. O ex-governador defendeu a realização de prévias no PSDB. “Acho que o PSDB já estabeleceu que para 2010 vai ter as primárias e acho que nós deveríamos fazer já”, disse.
Nos bastidores, Alckmin manifestou sua irritação a integrantes do comando do PSDB com as declarações de tucanos em favor do atual prefeito.
Kassab chegou ao evento de ontem à noite 10 minutos após a saída de Alckmin e disse preferir “não falar da hipótese de não existir a aliança”, por acreditar na manutenção dela. Questionado sobre a declaração do tucano citando pesquisas, disse apenas: “Nunca minimizo as pesquisas, que são importante retrato do momento”.
Artigo
No artigo de Natalini, o nome de Kassab está em cinco de oito parágrafos. Não há menção a Alckmin. “Serra e Kassab tomaram posse e, com eles, fincou raízes um princípio ético que se estende até hoje, em cada ação pública. Pouco discurso e muita ação concreta. Seriedade e competência no trato com o dinheiro público”, diz o texto do vereador. Natalini afirma que “todos [os vereadores] endossaram o documento”.
“Este governo, comandado pelo prefeito Kassab e pelos secretários e subprefeitos, em sua maioria do PSDB, deram [sic] uma nova “cara” para São Paulo com a Lei Cidade Limpa”, complementa o texto.
Embora diga não ter restrições à candidatura de Alckmin, Natalini não declarou voto no tucano em caso de duas candidaturas. “Isso é um problema particular meu. Sou extremamente partidário, fiel ao partido, mas em quem vou votar ou deixar de votar é um problema muito particular meu, de foro íntimo”, disse em entrevista.
Reunidos na sede do partido, os vereadores informaram ao secretário municipal Andrea Matarazzo a decisão de realizar um ato em favor da aliança no dia 29 -dois dias após a manifestação dos alckmistas.
Os vereadores também decidiram cobrar da direção do partido uma resposta à carta em que sugerem que o diretório municipal seja consultado sobre a aliança. O documento é endereçado ao presidente do partido, José Henrique Reis Lobo. Mas ele não o leu.
Ontem, mais uma vez, Lobo faltou à reunião e designou Matarazzo, vice-presidente do partido, como representante.
Add comment Maio 17, 2008
Marta volta? – ARTIGO – Dimenstein
17 de março – Folha de S.Paulo
Marta volta?
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Se sair mesmo candidata à Prefeitura de São Paulo, como indicam as articulações de bastidores, Marta Suplicy já está com um pé no segundo turno o que revela como sua gestão conseguiu deixar uma sólida lembrança no eleitorado, especialmente o mais pobre. Com base nesse apoio, seus defensores estão articulando a campanha “Marta, volta”.
Hoje ela tem uma experiência administrativa municipal e federal, o que não existia quando venceu a eleição para a prefeitura. Possivelmente, a derrota que sofreu, na disputa à reeleição, deve tê-la ensinado algo sobre como fazer alianças, lidar com as adversidades e manter o equilíbrio emocional para governar uma cidade com a complexidade de São Paulo.
Em poucas palavras, é uma candidata eleitoralmente forte, acrescida de uma vivência administrativa local que pode até ajudar a enriquecer, com soluções concretas, o debate eleitoral.
O grande mistério é saber se Marta, caso eleita, volta mesmo. Seu grande projeto, sabido por todos, é suceder Lula ou tentar o governo de São Paulo. Uma vitória municipal levará seu nome a circular na disputa estadual ou, quem sabe, federal. Vai resistir?
Talvez não queira resistir. Mas existirá espaço para ela repetir o trampolim de José Serra? Afinal, nessa eleição haverá ainda mais cobrança para que não se eleja um prefeito com mandato-tampão. A cidade está cada vez mais mobilizada a atenta. O caos do trânsito, transmitindo a sensação de risco de colapso, à espera de alguém capaz de articular soluções complexas.
O fato é que, nesse pleito, com tantos nomes fortes, os principais deles com ampla experiência administrativa como Alckmin e Kassab, um candidato que não transmita a certeza de que a prefeitura não é um trampolim terá dificuldades sérias nas urnas.
Se Marta quiser mesmo se eleger, terá de ser bem convincente de que deseja, de fato, voltar à prefeitura.
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Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras. |
Add comment Maio 17, 2008
Marta, my dear – ARTIGO EXCELENTE!!!
20 de março - Folha de S.Paulo – ARTIGO
MELCHIADES FILHO
Marta, my dear
Marta, my dear
BRASÍLIA - Ela será cobrada pelo relaxa-e-goza, não terá desta vez o respaldo da máquina municipal e pegará, ao que tudo indica, dois rivais fortes, em vez de um. Mas, na comparação com 2004, nem tudo joga contra Marta Suplicy.
Primeiro: o PT está mais coeso. Quando Marta tentou sem sucesso a reeleição, os caciques se acotovelavam por cargos no governo Lula e, sobretudo, para se cacifar à sucessão. José Dirceu, então superministro, por exemplo, ajudou a implodir a aliança com o PMDB em São Paulo, que daria mais tempo de TV. Tudo para enfraquecer a potencial concorrente em 2010.
Dirceu, Palocci, Mercadante & Cia. não têm mais essa perspectiva, como se sabe. Hoje lutam para recuperar credibilidade e influência. Os petistas paulistas precisam de uma vitória do PT em São Paulo.
Segundo: vitaminado, Lula pode contribuir mais agora. A rejeição a um candidato dele na cidade (24%) não é diferente da de Belo Horizonte (22%), Rio (23%), Porto Alegre (22%) e Curitiba (24%). O presidente fala muito da prefeitura carioca, mas a prioridade, claro, é vencer o adversário José Serra na casa dele. E tome PAC na periferia.
Terceiro: a chapa martista pode acabar reeditando a coalizão federal. O PMDB de Quércia está próximo. E, embora Paulinho afirme que será candidato, há no PDT quem diga que, se Carlos Lupi for deixado em paz no Ministério do Trabalho, o partido também irá de Marta.
Quarto: o discurso de oposição serve melhor a Marta. O morno fiz-muito-mas-posso-fazer-mais de quatro anos atrás soou estranho à personalidade e à trajetória dela.
Por fim, os oponentes partem da mesma base política, têm a mesma plataforma e competem pelo mesmo eleitorado. As fissuras entre Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM) só tendem a aumentar, assim como as chances de que o menos afortunado deles venha a ajudar veladamente a ex-prefeita num provável segundo turno.
Add comment Maio 14, 2008
Perseverar no erro é com PSDB e DEM – ARTIGO
19 de março – Estado de S.Paulo – ARTIGO
Na última campanha eleitoral pela Presidência da República, o PSDB tinha tanta certeza de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, seria derrotado pelo escândalo do “mensalão” que o então prefeito da capital, José Serra, e o ex-governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin se engalfinharam numa guerra autofágica pela subida honra de vencê-lo. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a cunhar uma frase aparentemente acaciana, mas que não resistia, como não resistiu, aos fatos. Em entrevista à revista Playboy, garantiu que Alckmin era melhor candidato, mas Serra seria melhor presidente. Ainda não dá para saber se Serra seria um bom presidente, pois na única vez que disputou perdeu para Lula. Mas o atual governador paulista já se tinha provado excepcional candidato ao derrotar a prefeita Marta Suplicy, do PT, com ela no cargo e tendo sua gestão aprovada no dia da eleição pela maioria do eleitorado paulistano. A forma desastrada como Alckmin conduziu a candidatura presidencial no segundo turno, que caíra do céu por conta da lambança dos chamados “aloprados”, que produziram um falso dossiê para tentar derrotar Serra para o governo estadual e favorecer o senador petista Aloizio Mercadante, deixou claro que melhor candidato que Serra ele não é.
Em benefício do ex-governador é possível dizer que, graças à sua pertinácia, ao afastar o oponente da liça, como fez, ele terminou por prestar um grande serviço ao próprio partido, uma vez que, não se candidatando à Presidência, Serra pôde disputar e ganhar – no primeiro turno – o governo do maior Estado do País. Nunca se saberá se Serra ganharia de Lula, mas qualquer observador isento verificou que a aposta feita pelos tucanos na denúncia de corrupção não passou de sonho de uma noite de verão. E o mais provável é que Lula derrotasse qualquer um deles, uma vez que o PSDB perdera completamente a autoridade de empunhar a bandeira da moralidade depois de salvar a pele de seu ex-presidente nacional Eduardo Azeredo, acusado de ter fundado o esquema que mais tarde seria usado no âmbito federal e já tendo como operador o publicitário mineiro Marcos Valério.
Isso permitiu a Lula e ao PT darem um banho de estratégia política nos adversários, facilitado pelo erro tático de Alckmin, que, em vez de defender a privatização empreendida por seu correligionário Fernando Henrique, perdeu a oportunidade de ganhar o inesperado segundo turno ao ficar numa defensiva tíbia e pouco inteligente. Numa demonstração de clarividência extraordinária, o presidente isolou os tucanos em São Paulo (já que não havia mais o que fazer), derrotando-os em 2006 e preparando o terreno para 2010, numa tentativa de minar o favoritismo dado pelas pesquisas a Serra.
O que talvez nem os mais otimistas estrategistas petistas imaginavam é que tucanos e dêmicos fossem de um egocentrismo tal que terminariam por pôr em risco até esse bastião em que se instalaram nas últimas eleições, desde que desalojaram o PT da Prefeitura da capital em 2004. Os antigos romanos diziam que “errare humanum est, sed in errore perseverare diabolicus est” (“errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico”). Se na Roma dos Césares houvesse um PSDB ou um DEM, é provável que eles substituíssem o diabólico por tucano ou dêmico. Pois a dura batalha entre o ex-governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e o prefeito Gilberto Kassab, do DEM, para disputar com o PT é a estulta preservação do erro da última campanha presidencial: um fogo amigo que só poderá levar às cinzas da derrota.
Quando essa luta começou, Marta Suplicy nem ousava se candidatar, principalmente depois de ter presenteado o dístico “relaxa e goza” a qualquer adversário que concorra com ela por votos. Mas agora a ministra do Turismo é candidata e as pesquisas, apesar de anunciarem sua derrota no segundo turno para qualquer um de seus adversários, já reconhecem claramente suas chances.
Assim como na última campanha presidencial Alckmin inovou ao usar como puxador de votos seu falecido antecessor, Mário Covas, desta vez contribuirá para o folclore político ao criar o “continuísmo sem continuação”. Como PSDB e DEM têm um consórcio que funcionou em São Paulo muito bem até agora, ele não se poderá opor à gestão de Kassab, pois, afinal, esta é a continuidade da de Serra, como dele fora a do citado Covas. Mas, de igual maneira, não lhe será fácil convencer o eleitorado de que ele continuará a gestão de Kassab, sendo o próprio prefeito seu adversário no primeiro turno. É legítimo que o prefeito queira disputar a reeleição, instituto acrescentado à ordem constitucional brasileira por um correligionário do ex-governador, o ex-presidente Fernando Henrique. Alckmin também se julga no direito de disputar a Prefeitura com as pesquisas o apontando como pleno favorito. Caberá ao eleitor decidir entre os dois quem enfrentará a adversária petista no segundo turno e isso é democrático.
O fato, contudo, é que a disputa entre Alckmin e Kassab tem produzido tantas arestas nos dois partidos que lhes dão sustentação e são tradicionalmente aliados que dificilmente aquele dentre os dois que for derrotado no primeiro turno arregaçará as mangas pelo vencedor no segundo, para evitar que a Prefeitura caia de volta nas mãos do PT. Desde Cristiano Machado, o candidato do PSD que foi traído pelas bases que votaram em Getúlio Vargas, do PTB, em 1950, a chamada “cristianização” tem feito vítimas muito ilustres na política brasileira. Caso do dr. Ulysses Guimarães na eleição vencida por Fernando Collor, por exemplo. Com o apoio de Lula e seus aliados, Marta Suplicy pode repetir os feitos do presidente e do governador de São Paulo, passando os favoritos para trás. E, se o conseguir, ainda poderá ajudar Lula a fazer o sucessor em 2010.
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde
Add comment Maio 14, 2008
