Bilhete único (EDITORIAL)

Julho 20, 2008

19 de julho - Estadão

O prefeito Gilberto Kassab, candidato à reeleição, ampliou o tempo de validade do bilhete único, cartão magnético que atualmente permite a realização de quatro viagens no sistema de transporte público da capital, no prazo de duas horas, ao custo único de R$ 2,30. A partir do dia 28, os passageiros terão uma hora a mais para viajar pagando a tarifa única. A decisão elevará em R$ 80 milhões os subsídios mensais da Prefeitura de São Paulo para cobrir as gratuidades do bilhete único. Hoje, esses custos já ultrapassam os R$ 300 milhões.

Ao anunciar a medida, Gilberto Kassab explicou que a elevação do subsídio será compensada pelas economias decorrentes da melhor gestão do sistema de transporte. Segundo ele, a administração municipal se dedicou a combater as fraudes realizadas com o bilhete único, o que proporcionou economia de R$ 120 milhões nos últimos anos. Houve também redução de R$ 100 milhões no custo do sistema, em decorrência do reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos. Ao controlar com rigor a construção de novos terminais, a Prefeitura também reduziu custos em pelo menos R$ 40 milhões.

Com isso, o prefeito pretendeu rebater as inevitáveis críticas por lançar a medida em período de campanha eleitoral. “Não podemos ser levianos de apresentar despesas sem a contrapartida de receitas.” De fato, o que os paulistanos esperam, com relação ao transporte público, não é um debate eleitoral, mas medidas que melhorem um serviço vital para a população.

É bastante ponderável, por exemplo, o argumento de que, antes de ampliar o prazo de validade do bilhete, o que aumentará consideravelmente a demanda no sistema, a Prefeitura deveria investir na construção de corredores e na compra de equipamentos que assegurassem maior eficiência do serviço, com conforto e segurança para os passageiros. Ao estimular o maior uso do sistema nas condições atuais, a administração municipal condenará os passageiros a viajar como “sardinhas em lata”, a enfrentar longa espera nos pontos e a perder horas em congestionamentos.

Em 2007, mais de 2,7 bilhões de viagens foram realizadas em aproximadamente 15 mil ônibus, microônibus e vans de São Paulo. Esses altos números contrastam com os baixos índices de qualidade dos serviços. Tradicionalmente, os ônibus municipais apresentam a pior avaliação dos usuários entre os três modais (trens metropolitanos, ônibus e metrô), em pesquisa anual feita pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). No ano passado, apenas 42% aprovaram os serviços prestados.

Os investimentos no setor nunca obedecem a um planejamento lógico. Geralmente são tímidos em relação às necessidades da capital paulista e desconexos.

Na administração Marta Suplicy, foi elaborado um projeto de reforma que previa a distribuição racional da frota, vias exclusivas para a circulação dos veículos de transporte público, renovação da frota e tecnologia de ponta para o controle dos itinerários, velocidade e horários dos ônibus.

Mas a meta de instalar 325 quilômetros de corredores de ônibus exclusivos até 2008 não foi cumprida. Marta Suplicy deixou a Prefeitura, a administração Serra/Kassab não deu continuidade ao projeto e abandonou os corredores já construídos. Hoje, a cidade conta pouco mais de 100 quilômetros de vias segregadas para os ônibus, a frota não foi totalmente renovada e a tecnologia GPS para controle dos veículos funciona precariamente. Nos últimos dez anos, a quantidade de veículos particulares aumentou 25% na cidade e a malha viária cresceu menos de 6%. Para que o transporte público substitua o carro particular - condição para que o nó do trânsito seja desfeito - a Prefeitura teria, primeiro, de ampliar a estrutura do sistema de ônibus e aperfeiçoar o seu controle operacional. Somente depois disso as autoridades deveriam estimular o uso do transporte público. Invertendo essa ordem, aumentará o número de descontentes com o transporte público que, se puderem, irão usar o carro particular.

A ampliação do prazo de validade do bilhete único vem em hora errada.

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