Gastar em corredor seria melhor, diz analista

Julho 18, 2008

18 de julho - Folha de S.Paulo

Embora traga benefícios aos usuários de ônibus, a ampliação da validade do bilhete único apresenta algumas inconsistências, segundo alguns especialistas ouvidos pela Folha.
A primeira delas é permitir que os passageiros fiquem mais tempo dentro dos coletivos sem ter que pagar mais, e não que eles viajem de forma mais rápida -algo visto como um problema maior hoje em dia.
Para alguns, os gastos decorrentes da medida seriam mais bem aplicados em investimentos em novos corredores de ônibus -que ficaram restritos nos últimos anos à continuação do Fura-Fila e ao Celso Garcia.
Outro desvio citado por especialistas está ligado ao próprio conceito do bilhete único. A idéia do cartão é garantir que os moradores façam uma viagem (com uma origem e um destino) pagando uma só tarifa, independentemente do número de baldeações necessário.
A ampliação do tempo do benefício, porém, pode incentivar muitas viagens paralelas que não estão ligadas às necessidades da população periférica.
Um estudante de classe média pode aproveitar para ir ao curso de inglês, assistir a aula, ir ao shopping e voltar para casa pagando uma só passagem.
O receio de alguns técnicos é que haja mais usuários desse tipo favorecidos do que moradores da periferia que não conseguem se deslocar ao trabalho passando pela última catraca no prazo de até duas horas.
“A medida é boa para os usuários de ônibus, mas beneficiaria mais gente se os recursos fossem para os corredores”, defende Ailton Brasiliense, da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos).
“Isso está desvirtuando a função do bilhete único. Quem não precisa ou precisa pouco está usando mais”, afirma Luiz Célio Bottura, especialista em engenharia urbana.
“A ampliação vai beneficiar muitas pessoas que moram nos extremos. Mas precisa de medidas mais eficazes”, diz a engenheira Adriane Fontana.
“Ela é boa para os usuários. O ideal seria ter feito mais corredores. Mas, dentro da realidade de uma cidade congestionada, é uma solução mais emergencial, de curto prazo”, afirma Jaime Waisman, professor da USP.

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