Eleitores de baixa renda, a força da petista

20 de julho - Estadão

Alckmin e Kassab, ao contrário, destacam-se no eleitorado acima dos 5 salários mínimos

A história se repete. Os pontos fortes de Marta Suplicy estão na população de mais baixa renda (até 5 salários mínimos), mais baixa escolaridade (até a 8ª série do ensino fundamental) e, quase sempre, entre os mais jovens. Já as forças de Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab, que se originam na mesma liga político-partidária, aumentam à medida que a pesquisa sobe dos segmentos de renda e escolaridade médios para altos.

Um bom exemplo disso é que Marta registrou 43% de preferência de voto entre os que têm da 5ª à 8ª séries, mas ficou com apenas 21% entre os que têm ensino superior. Subiu a 39% entre os que ganham até 2 salários mínimos, mas caiu para 26% entre os que recebem acima de 5 salários mínimos. Os índices de Alckmin, no sentido inverso, variaram de 24% (entre os que têm da 5ª à 8ª séries) a 42% (entre os que têm ensino superior).

Kassab, no mesmo compasso da linhagem tucana, fica com 7% entre os que cursaram até a 8ª série, mas chega a atingir 16% entre os que têm ensino superior; entre os que ganham até 5 salários mínimos, não passa de 9%, mas vai bater em 14% entre os que ganham acima de 5 salários mínimos.

Alckmin venceu com facilidade no centro (43% a 31%), na zona norte (34% a 29%), na zona oeste (34% a 23%) e na zona sul I (41% a 22%); Marta ganhou na zona leste I (48% a 23%) e na zona sul II (47% a 25%). Na zona leste, Maluf roubou o terceiro posto de Kassab.

Marta, curiosamente, é a candidata dos homens: ostenta uma preferência de 36% entre os eleitores do sexo masculino e de apenas 32% no universo eleitoral feminino, que ela tanto defendeu em seus tempos de sexóloga. Já com Alckmin funciona ao contrário: seu potencial de votos é sustentado, basicamente, pelo eleitorado feminino, que lhe promete uma preferência de 35%; já os homens lhe atribuem apenas 27%.

Nas simulações de segundo turno aparecem com clareza os pontos fortes e fracos dos candidatos. Marta venceria Alckmin con certa facilidade (49% a 41%) entre os que têm até a 4ª série do ensino fundamental; mas perderia feio (61% a 31%) entre os que têm curso superior. Sua fragilidade nos segmentos de mais alta renda e escolaridade é tão grande que ela perderia até para Kassab num hipotético segundo turno por 56% a 32% entre os que têm curso superior.

INCÓGNITAS

A pesquisa traz duas incógnitas, registra Márcia Cavallari, diretora do Ibope. Uma delas é que a maior força de Marta e do PT não aparece claramente no segmento extremo de mais baixa escolaridade (até a 4ª série do ensino fundamental), como aconteceu nas disputas eleitorais de 2004 e 2006, mas no segmento ligeiramente acima do extremo. Na simulação de primeiro turno, Marta alcançou 43% no segmento que vai da 5ª à 8ª séries e apenas 35% entre os que cursaram até a 4ª série; em sentido inverso, o desempenho de Alckmin é melhor no segundo segmento citado (26%) e pior no primeiro (24%).

A segunda incógnita é a baixa intenção de voto em Kassab, uma vez que ele continua recebendo uma boa avaliação do eleitorado, segundo demonstra a pesquisa: 36% dos paulistanos a consideram ótima ou boa (índice menor que a preferência de voto por Marta), 34% a reputam regular e 28% dizem que é ruim ou péssima. Isso quer dizer que 26% dos paulistanos consideram sua gestão ótima ou boa, mas não decidiram votar nele.

Add comment Julho 20, 2008

Ibope dá 34% a Marta e 31% a Alckmin na corrida em S. Paulo

20 de julho - Estadão

Em um eventual segundo turno, tucano teria 47% e petista, 43%, revela pesquisa feita para o Estado

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Os candidatos Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) apareceram tecnicamente empatados na disputa pela Prefeitura de São Paulo, com ligeira vantagem para Marta, que teve 34%, contra 31% de Alckmin, segundo pesquisa contratada pelo Estado e pela TV Globo e realizada pelo Ibope.

linkConfira mais dados da pesquisa

Em terceiro lugar aparece o prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, com 10%, também em empate técnico com o ex-prefeito Paulo Maluf (PP), que teve 9%. Soninha Francine (PPS) registrou 2%. Como a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos porcentuais, Marta pode ter de 31% a 37%, e Alckmin, de 28% a 34%, o que demarca um ponto de intersecção entre as possíveis variações dos dois.

Num hipotético segundo turno, Alckmin apareceu à frente de seus dois principais rivais. Contra Marta, registrou 47% a 43%, em situação de empate técnico; contra Kassab venceria por 35 pontos - 58% a 23%. Marta, por sua vez, superaria Kassab por 16 pontos - 51% a 35%. O porcentual de indecisos na pesquisa estimulada é muito baixo, considerando o tempo que resta até as eleições - só 8% disseram que votarão em branco ou nulo e apenas 4% ainda não decidiram em quem votar. Nessa situação, para crescer um candidato não terá alternativa senão tomar votos de oponentes que estão à sua frente.

Isso pode não ser fácil para os que têm índices de rejeição mais altos. A maior dificuldade será de Maluf: 61% declaram que não votariam nele “de jeito nenhum”. O segundo índice de rejeição mais elevado é de Marta, que sofre restrições de um terço do eleitorado - 33% dos paulistanos disseram que não votariam nela. O terceiro índice de rejeição, de 28%, é de Kassab.

O atual prefeito, no entanto, tem um consolo: dos candidatos competitivos, continua sendo o menos conhecido do eleitorado, atesta Márcia Cavallari, diretora do Ibope, e, na leitura das manifestações de vontade do eleitor, o desconhecimento se soma à rejeição. Soninha Francine apresentou uma rejeição mediana: 17%.

Alckmin tem o mais baixo índice de rejeição entre os candidatos competitivos: apenas 13% declararam que não votariam nele (seu índice mais alto esteve entre os que têm curso superior - 16%). O índice de rejeição permite estimar se um candidato pode almejar eleger-se a um cargo majoritário ou não, ensinam os especialistas. A chance se esgota se a rejeição beirar os 40%, o que complica Maluf e acende luz amarela para Marta.

Na pesquisa espontânea, em que os eleitores devem mencionar um candidato sem nenhuma sugestão do entrevistador, Marta manteve a liderança, já agora fora da margem de empate técnico. Ela alcançou 24% das citações, enquanto Alckmin teve 17% e Kassab chegou a 7%. Maluf reuniu 4% e Soninha Francine, 1%. Os outros candidatos não atingiram 1%.

Na pesquisa espontânea, o número de indecisos é maior: 11% afirmam que votariam em branco ou nulo e 34% não souberam ou não quiseram mencionar nenhum candidato - total de 45% de eleitores ainda indefinidos.

A avaliação dos governos estadual e federal demonstram que o governador José Serra e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderão ser bons eleitores. O governo Serra é ótimo ou bom para 41% do eleitorado, regular para 37% e ruim ou péssimo para 18%. Já a avaliação do governo Lula é bem superior: 48% de ótimo/bom, 28% de regular e 22% de ruim/péssimo.

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Bilhete único (EDITORIAL)

19 de julho - Estadão

O prefeito Gilberto Kassab, candidato à reeleição, ampliou o tempo de validade do bilhete único, cartão magnético que atualmente permite a realização de quatro viagens no sistema de transporte público da capital, no prazo de duas horas, ao custo único de R$ 2,30. A partir do dia 28, os passageiros terão uma hora a mais para viajar pagando a tarifa única. A decisão elevará em R$ 80 milhões os subsídios mensais da Prefeitura de São Paulo para cobrir as gratuidades do bilhete único. Hoje, esses custos já ultrapassam os R$ 300 milhões.

Ao anunciar a medida, Gilberto Kassab explicou que a elevação do subsídio será compensada pelas economias decorrentes da melhor gestão do sistema de transporte. Segundo ele, a administração municipal se dedicou a combater as fraudes realizadas com o bilhete único, o que proporcionou economia de R$ 120 milhões nos últimos anos. Houve também redução de R$ 100 milhões no custo do sistema, em decorrência do reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos. Ao controlar com rigor a construção de novos terminais, a Prefeitura também reduziu custos em pelo menos R$ 40 milhões.

Com isso, o prefeito pretendeu rebater as inevitáveis críticas por lançar a medida em período de campanha eleitoral. “Não podemos ser levianos de apresentar despesas sem a contrapartida de receitas.” De fato, o que os paulistanos esperam, com relação ao transporte público, não é um debate eleitoral, mas medidas que melhorem um serviço vital para a população.

É bastante ponderável, por exemplo, o argumento de que, antes de ampliar o prazo de validade do bilhete, o que aumentará consideravelmente a demanda no sistema, a Prefeitura deveria investir na construção de corredores e na compra de equipamentos que assegurassem maior eficiência do serviço, com conforto e segurança para os passageiros. Ao estimular o maior uso do sistema nas condições atuais, a administração municipal condenará os passageiros a viajar como “sardinhas em lata”, a enfrentar longa espera nos pontos e a perder horas em congestionamentos.

Em 2007, mais de 2,7 bilhões de viagens foram realizadas em aproximadamente 15 mil ônibus, microônibus e vans de São Paulo. Esses altos números contrastam com os baixos índices de qualidade dos serviços. Tradicionalmente, os ônibus municipais apresentam a pior avaliação dos usuários entre os três modais (trens metropolitanos, ônibus e metrô), em pesquisa anual feita pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). No ano passado, apenas 42% aprovaram os serviços prestados.

Os investimentos no setor nunca obedecem a um planejamento lógico. Geralmente são tímidos em relação às necessidades da capital paulista e desconexos.

Na administração Marta Suplicy, foi elaborado um projeto de reforma que previa a distribuição racional da frota, vias exclusivas para a circulação dos veículos de transporte público, renovação da frota e tecnologia de ponta para o controle dos itinerários, velocidade e horários dos ônibus.

Mas a meta de instalar 325 quilômetros de corredores de ônibus exclusivos até 2008 não foi cumprida. Marta Suplicy deixou a Prefeitura, a administração Serra/Kassab não deu continuidade ao projeto e abandonou os corredores já construídos. Hoje, a cidade conta pouco mais de 100 quilômetros de vias segregadas para os ônibus, a frota não foi totalmente renovada e a tecnologia GPS para controle dos veículos funciona precariamente. Nos últimos dez anos, a quantidade de veículos particulares aumentou 25% na cidade e a malha viária cresceu menos de 6%. Para que o transporte público substitua o carro particular - condição para que o nó do trânsito seja desfeito - a Prefeitura teria, primeiro, de ampliar a estrutura do sistema de ônibus e aperfeiçoar o seu controle operacional. Somente depois disso as autoridades deveriam estimular o uso do transporte público. Invertendo essa ordem, aumentará o número de descontentes com o transporte público que, se puderem, irão usar o carro particular.

A ampliação do prazo de validade do bilhete único vem em hora errada.

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Mônica Bérgamo

19 de julho - Folha de S.Paulo

A HERANÇA DE MARTA
Num passeio no Mercado Municipal, na quarta, a candidata à Prefeitura de SP Marta Suplicy almoçou lasanha de bacalhau com salada, comeu abacaxi, maracujá, granadilha, bolo de chocolate com coco, um nozinho de mussarela e duas amêndoas caramelizadas. Recusou um pastelzinho, apesar de soltar um “Ê, perdição!”. “Minha melhor herança foi meu metabolismo”, diz Marta.

Add comment Julho 20, 2008

Bilhete único de 3 horas não é eleitoreiro, sustenta Kassab

18 de julho - Estadão

Medida anunciada ontem pelo prefeito custará R$ 80 milhões por ano ao Tesouro

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A 80 dias do primeiro turno das eleições municipais, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) anunciou ontem o aumento de duas para três horas o tempo de validade do bilhete único na cidade. A medida vai beneficiar cerca de 800 mil pessoas, especialmente os moradores das regiões mais afastadas, que usam diariamente o transporte público - ônibus, trem e metrô.

A mudança custará aos cofres municipais R$ 80 milhões por ano e entrará em vigor no dia 28. A ampliação da validade era uma reivindicação antiga dos moradores dos bairros mais distantes do centro, onde Kassab busca ampliar sua votação num eleitorado majoritariamente petista.

Criação da ex-prefeita Marta Suplicy, candidata do PT à prefeitura, hoje o bilhete único permite ao passageiro fazer até quatro viagens - com direito a integração com trem e metrô - no prazo de duas horas pagando somente uma tarifa. Com a grande distância entre a periferia e o centro e o aumento dos congestionamentos, o benefício acabou perdendo alcance.

Candidato à reeleição, Kassab negou que a medida tivesse caráter eleitoreiro. Disse que o prazo foi estendido graças ao resultado de “boa gestão”. “É evidente que não tem vinculação eleitoral. Tem vinculação com o êxito das nossas medidas administrativas que possibilitam apresentar ao usuário do sistema público de transporte, em especial aquele que mora na periferia, a oportunidade de fazer a sua viagem com uma única passagem”, justificou o candidato, após debate à tarde promovido pelo portal IG.

Segundo Kassab, a renúncia de receita decorrente da medida não irá comprometer o orçamento nem resultará em futuros reajustes na tarifa dos ônibus municipais - hoje em R$2,30. A mudança, ele disse, é “fruto da austeridade” da administração municipal em relação ao uso do dinheiro público.

Em março, o governo municipal anunciou medidas contra fraudes no uso do bilhete único. Em três meses, segundo Kassab, impediu desvios de R$ 10 milhões por mês. A previsão é de que R$ 120 milhões entrem nos cofres públicos em um ano.

Outros R$ 100 milhões foram obtidos com a renegociação de contratos com as empresas de ônibus. E outros R$ 40 milhões com a renegociação com as empresas que administram os terminais de ônibus. “Estamos tendo uma receita positiva de R$ 260 milhões”, disse Kassab. Segundo o prefeito, essas medidas foram concluídas há cerca de um mês. Por isso, o benefício do bilhete único só foi anunciado agora, explicou Kassab, negando o tom populista. “Nossa prioridade é sempre melhorar a vida das pessoas.”

Além dos R$ 80 milhões com o bilhete único, esse superávit custeia outro benefício, o Bilhete Amigão. Ao custo anual de R$ 24 milhões, ele permite ao usuário fazer quatro viagens num período de oito horas aos domingos e feriados.

O anúncio foi feito durante vistoria a obras no Terminal Varginha, na Capela do Socorro, um dos bairros mais pobres da zona sul da cidade e onde a candidata do PT, Marta Suplicy, lidera nas urnas.

O evento, explicou o próprio Kassab, era um ato do prefeito, não do candidato. Ele usou essa justificativa para se negar a responder se o aumento do benefício teria como objetivo melhorar seu desempenho nas pesquisas. “São questões diferentes”, disse. “Peço, quando estivermos falando de prefeitura, não falar de campanha.”

Pouco antes, entretanto, Kassab lançou farpas contra Marta. Ao comentar a situação financeira da prefeitura herdada da petista, ele voltou a ressaltar o total de R$ 4 bilhões que a prefeitura tem em caixa. “A ex-prefeita já avisou que vai quebrar a prefeitura. Ela acha que tem de gastar tudo (R$ 4 bilhões), esquece que tem de pagar contas, tem a rotina da prefeitura.” Marta costuma dizer que a prefeitura tem guardado dinheiro público no banco em vez de investir em melhorias para os mais pobres.

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Marta e Alckmin evitam criticar atitude do rival

18 de julho - Estadão

Petista e tucano miram periferia, maior beneficiada pela vigência ampliada do bilhete único

De olho no voto do eleitorado menos abastado, os dois principais candidatos à Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marta Suplicy (PT), tiveram a mesma reação diante da medida do adversário, prefeito Gilberto Kassab (DEM), de ampliar o tempo de gratuidade do bilhete único. Ambos evitaram criticar a medida anunciada período eleitoral.

“Acho que o prefeito tem o direito de tomar as medidas que considera importantes. Aquilo que beneficiar a população tem todo o meu apoio”, disse Alckmin. Marta também apoiou a mudança, apesar de considerar o anúncio eleitoreiro. “Não faz mal que seja eleitoreiro, porque quem tinha que pagar dois bilhetes agora vai pagar um só”, afirmou a petista, que teve o bilhete único como bandeira de sua campanha à reeleição em 2004.

Alckmin pisou em ovos quando perguntado se a medida teria vinculação com as urnas e a queda do prefeito nas pesquisas. “A minha conversa é direto com a população. Não vamos nos preocupar com críticas”, desconversou.

A população das regiões mais afastadas da cidade será a maior beneficiada pela mudança. É nesse segmento do eleitorado que Marta tem maior força e que Alckmin busca votos para reduzir a distância da petista no primeiro turno.

Com ironia, Marta acrescentou que “apreciaria” se Kassab voltasse atrás em mudanças feitas por ele, como o limite de quatro viagens por tarifa ou a proibição de recarga na catraca. “Ele foi perverso com o povo.” Logo depois, em entrevista, ela completou: “Não precisava ter chegado tão perto da eleição e do mau desempenho para incrementar o bilhete único”. Há menos de uma semana, Marta havia anunciado a intenção de estender em meia hora o tempo de uso do bilhete.

FRASE

Marta Suplicy
Candidata do PT

“Não faz mal que seja eleitoreiro, porque quem tinha que pagar dois bilhetes agora vai pagar um só”

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Fracassa licitação para a troca de semáforos em SP

18 de julho - Folha de S.Paulo

Plano de modernização é promessa antiga de Kassab

JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL

A tentativa do governo Gilberto Kassab (DEM) de modernizar os semáforos de São Paulo, uma das medidas anunciadas por ele para reduzir os congestionamentos, sofreu um forte revés nos últimos dias, o que coloca em xeque a promessa do prefeito de substituir todos os equipamentos ultrapassados até o final deste ano.
Nenhuma empresa se interessou pela licitação aberta pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) para trocar 1.200 semáforos eletromecânicos por eletrônicos -a cidade tem cerca de 5.000 cruzamentos semaforizados-, em regiões como Pinheiros e Lapa.
A diferença entre os dois modelos é substancial: o eletrônico pode ter a programação alterada à distância, a partir da central da CET, de acordo com o tráfego, o que permite mudar os tempos do sinal para dar vazão a congestionamentos.
O programa de modernização é uma promessa antiga da CET, desde as gestões de Marta Suplicy (PT) e de José Serra (PSDB) até a de Kassab. O governo Kassab vê a medida como um trunfo contra a deterioração do trânsito.
“A diferença é tão grande que não há como comparar os efeitos dos dois sistemas no trânsito. O mecânico é obsoleto, ninguém usa mais”, diz o engenheiro Luís Antônio Seraphim, ex-assessor da CET.
Para Seraphim, o fracasso ocorreu, provavelmente, por falhas na formulação do edital, em itens como preço e prazo de execução, por exemplo.
A versão oficial de empresas do setor de sinalização é a de que os preços previstos pela CET são muito baixos.
Segundo Marcelo Szyflinger, diretor da Cobrasin, a CET queria pagar metade da expectativa do valor de mercado. A Meng Engenharia diz não ter participado em razão das “condições comerciais” propostas.
A Folha apurou que, além do preço, empresas questionaram a viabilidade de trocar 1.200 semáforos num prazo curto, entre agosto e dezembro. Uma delas afirmou que é mais trabalhoso e demorado trocar os sistemas existentes do que instalar uma rede nova. E previa ainda transtornos devido à necessidade de desligar cada um dos semáforos por algumas horas para fazer o serviço.
Dentro da CET, a avaliação é de que houve um boicote pelo fato de a contratação prever um sistema que permite tornar compatíveis os equipamentos de tecnologias diferentes -evitando uma reserva de mercado.
O presidente da Abramcet (associação das empresas do setor), Silvio Medici, diz discordar até do mecanismo de pregão adotado pela CET. “Pregão não é adequado para produto de alta tecnologia.”

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Novo bilhete não ampliará custos, diz Kassab

18 de julho - Folha de S.Paulo

Prefeito diz que a prefeitura economizou dinheiro para bancar a medida, que, segundo ele, irá beneficiar 800 mil pessoas

O candidato do DEM diz que estuda a implantação de outras medidas que serão custeadas com o que afirma ter economizado

DA REPORTAGEM LOCAL

O prefeito Gilberto Kassab (DEM) afirmou que a ampliação do prazo para a utilização do bilhete único vai beneficiar 800 mil pessoas que moram “nas franjas da cidade” e negou que haja aumento de custo.
“Estamos com receita sobrando, teoricamente, em relação ao previsto para ser gasto com as medidas adotadas.”
Do começo de 2007 para cá, a necessidade de subsídios para suportar a elevação de custos do transporte saltou do patamar de R$ 27 milhões para praticamente R$ 40 milhões/mês.
Mas, segundo Kassab, a prefeitura economizará R$ 260 milhões/ano com três medidas: R$ 100 milhões com a redução dos valores dos contratos das empresas concessionárias e permissionárias (que, na realidade, tiveram um reajuste médio de 4% nos últimos meses); R$ 120 milhões com o combate às fraudes no bilhete único e R$ 40 milhões com a renegociação do contrato do gerenciamento dos terminais de ônibus.
As mudanças no bilhete único custarão, de acordo com ele, entre R$ 80 milhões e R$ 82 milhões por ano. A prefeitura também gasta aproximadamente R$ 24 milhões com o “Bilhete Amigão”, que permite até quatro viagens com uma única passagem em oito horas aos domingos e feriados.
Kassab afirmou que a prefeitura estuda a implantação de outras medidas que sejam custeadas com a quantia que ele diz ter economizado.
“Foi muito refletida essa decisão [de aumentar a validade do bilhete único], fruto dos bons resultados das medidas adotadas, e esperamos continuar economizando recursos, combatendo fraudes que eventualmente possam ainda existir, para oferecer novos benefícios”, disse o prefeito.
Kassab, candidato à reeleição, anunciou a medida ontem pela manhã, durante vistoria ao terminal Varginha, em Capela do Socorro, na zona sul.
Sem ser provocado pelos jornalistas, fez duas críticas a Marta Suplicy (PT), líder nas pesquisas de intenção de voto. Questionado se anunciou a ampliação da validade do bilhete único para tentar melhorar sua popularidade -está em terceiro nas pesquisas-, pediu que não fosse falado sobre eleição.
Em encontro com militantes no Jardim Ângela, na zona sul paulistana, a ex-prefeita Marta Suplicy disse estar satisfeita com a medida, mesmo a considerando “eleitoreira”.
O candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin, declarou: “Não vejo nenhum problema, tudo que for em benefício da população terá o meu apoio.”

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Gastar em corredor seria melhor, diz analista

18 de julho - Folha de S.Paulo

Embora traga benefícios aos usuários de ônibus, a ampliação da validade do bilhete único apresenta algumas inconsistências, segundo alguns especialistas ouvidos pela Folha.
A primeira delas é permitir que os passageiros fiquem mais tempo dentro dos coletivos sem ter que pagar mais, e não que eles viajem de forma mais rápida -algo visto como um problema maior hoje em dia.
Para alguns, os gastos decorrentes da medida seriam mais bem aplicados em investimentos em novos corredores de ônibus -que ficaram restritos nos últimos anos à continuação do Fura-Fila e ao Celso Garcia.
Outro desvio citado por especialistas está ligado ao próprio conceito do bilhete único. A idéia do cartão é garantir que os moradores façam uma viagem (com uma origem e um destino) pagando uma só tarifa, independentemente do número de baldeações necessário.
A ampliação do tempo do benefício, porém, pode incentivar muitas viagens paralelas que não estão ligadas às necessidades da população periférica.
Um estudante de classe média pode aproveitar para ir ao curso de inglês, assistir a aula, ir ao shopping e voltar para casa pagando uma só passagem.
O receio de alguns técnicos é que haja mais usuários desse tipo favorecidos do que moradores da periferia que não conseguem se deslocar ao trabalho passando pela última catraca no prazo de até duas horas.
“A medida é boa para os usuários de ônibus, mas beneficiaria mais gente se os recursos fossem para os corredores”, defende Ailton Brasiliense, da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos).
“Isso está desvirtuando a função do bilhete único. Quem não precisa ou precisa pouco está usando mais”, afirma Luiz Célio Bottura, especialista em engenharia urbana.
“A ampliação vai beneficiar muitas pessoas que moram nos extremos. Mas precisa de medidas mais eficazes”, diz a engenheira Adriane Fontana.
“Ela é boa para os usuários. O ideal seria ter feito mais corredores. Mas, dentro da realidade de uma cidade congestionada, é uma solução mais emergencial, de curto prazo”, afirma Jaime Waisman, professor da USP.

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Vai dar para ir e voltar com o bilhete, diz dona-de-casa

18 de julho - Folha de S.Paulo

O segurança Gilberto Simões, 29, costuma levar em média cerca de duas horas, em três conduções, para ir todos os dias de casa, no Jardim Ângela, até o trabalho, no Jabaquara, ambos bairros da região sul. Há cinco anos, ele conta que gastava menos da metade desse tempo. “Preferia um transporte mais rápido, em vez de mais tempo de bilhete único”, diz.
No entanto, ele acha que o aumento de duas para três horas do tempo para transbordos, anunciado ontem pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM), vai ser vantajoso, “principalmente nas segundas e sextas, quando tem mais trânsito e levo mais de duas horas para chegar”.
O ganho, porém, será no conforto de poder passar logo pela catraca -para otimizar as duas horas de gratuidade do bilhete único, Simões costumava lançar mão de uma artimanha comum entre os usuários de coletivos: esperar chegar perto do destino para só então pagar a passagem (o que costuma superlotar a parte da frente). “Na maioria das vezes, duas horas já era suficiente”, observou.
Quando tinha que passar mais de duas horas em ônibus, a manicure Ivana Henrique, 45, costumava fazer o mesmo. “Mas para mim não muda muito”, diz ela, que não tinha problemas para fazer a viagem de casa, em Piraporinha (extremo sul) até Santo Amaro (na mesma região) no antigo tempo.
Para ela, a medida será útil mesmo nos dias em que precisar “ir a uma consulta médica” ou “rodar pela 25 de março, para fazer uma ou outra compra” -casos em que “dará para ir e voltar com a mesma passagem”, propósito diferente da intenção inicial do bilhete único, de baratear trajetos unidirecionais, quando foi concebido.
Para Ivana, a medida é um “toma lá-dá-cá”. “A depender do custo desse tempo a mais [para a prefeitura] pode não ser vantagem”, diz ela. “Já estou me preparando para um aumento da passagem, ou de algum imposto que a gente nem sabe”. A prefeitura nega.
A vantagem para o barman Edmilson França, 27, também vai se resumir aos dias de passeio. Ele trabalha em Moema (região sul) e volta para casa, no Jardim Ângela, todos os dias após a 0h30, quando passa o último ônibus da linha. “Tenho que recorrer a uma perua clandestina. Poderiam distribuir melhor os horários”, afirma.

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